João Miguel Abreu – Relatório

A peça procura ilustrar uma passagem de uma forma orgânica para uma matéria dura, rígida como é a pedra. Procura integrar elementos da natureza não-humana – raízes, polvos, galhos de árvores – bem como formas corporais da mulher. Uma peça que se pretende subtil, que busca numa matéria pesada uma leveza orgânica. A torção de três pernas tenta criar um movimento circular  na peça levando o espectador a fazer o percurso necessário à observação integral da peça, impõe-lhe espaço. Cria-se um núcleo de onde as pernas surgem como que se a peça se fosse erguendo e crescendo a partir de uma massa principal. O plinto de terra não permite que o contexto orgânico se perca e cria um ciclo entre um objecto que vem do natural e se forma com conteúdos deste. À semelhança de um circuito eléctrico, a peça parte de uma massa e ergue-se a partir de formas terminais mas são estes terminais que lhe devolvem o contacto com o meio natural. Semelhante à função das raízes, também a peça só se ergue depois de ir buscar ao solo os nutrientes para sobreviver.

Mármore 47cm x 47cm x 31cm

Plinto quadrado 60cm x 60cm x 30cm em terra compactada.

Fase1

  • Elaboração de maquete em barro

Fase 2

  • Escolha de pedra

Fase 3

  • Desbaste com disco electrodepositado com falange 230mm
  • Escopo, Cinzel e Maceta

 Fase 4

  • Definição em planos de formas principais

 Fase 5

  • Definição das formas com mós de taça e charuto 24c

 Fase 6

  • Acabamentos com fresas electrodepositadas.

 

Mais ideias acerca do projecto.

Não gostaria de começar esta reflexão acerca do trabalho deste semestre, com algum tipo de descrição pormenorizada do processo. Penso que todo o desenvolvimento esteve bem presente e à vista de todos. As peças iam-se multiplicando semanalmente, sendo visíveis no local de trabalho. Aliás é neste ponto que queria inicialmente pegar; a influência do local de trabalho e a maneira como, tecnicamente, o trabalho se ia resolvendo, tendo em conta os processos que ia aprendendo e as dificuldades que precisavam de ser contornadas.

Aliás, grande parte da raiz teórica e conceptual da proposta foi-se transladando à medida que o processo de aprendizagem avançava. De facto, propus-me a trabalhar em algo do qual pouco ou nada sabia. A nível das áreas da escultura nunca tinha tido grande contacto, portanto foi necessária uma introdução cuidada a muitos conceitos e técnicas, incidindo predominantemente nos moldes.

A ideia inicial, de uma ‘assemblage’ de relações entre os objectos (objecto pelo objecto) foi sendo gradualmente substituída pelas noções que incidiam entre o objecto e o seu próprio molde, o seu negativo, como um constante movimento de ausência e ocultação. Um jogo de engano, em que os objectos se medem pelas suas metades, por apenas uma das suas faces, como uma espécie de marca que acaba por nunca dizer tudo acerca do todo da peça. Acima de tudo, os processos técnicos acerca dos moldes ajudaram-me a conseguir materializar a ideia inicial, acabaram por lhe conceder uma espécie de mutação, o foco centra-se agora não só na poética entre objectos mas incide na própria aura de cada objecto. Cada peça reconhece os assuntos e dualidades presentes na sua própria existência e na ausência do seu todo. Portanto, reconheceram-se problemáticas importantes da ideia inicial, tal como a simbologia e valor das formas, mas estes assuntos acabaram por ser moldados por via do desenvolvimento prático do projecto.

A forma como alguns dos resultados destas experiências foram expostos, diz muito acerca do próprio ponto de desenvolvimento em que se encontravam dentro do projecto.

Foram pensados os indícios de assunto que poderiam existir entre uma ou outra forma, incidindo em momentos de ocultação, sempre na dúvida da verdadeira realidade da forma. Este último ‘ensaio expositivo’ acabou por ter lugar no próprio espaço em que todo o projecto foi realizado, o que inevitavelmente concedeu uma certa especificidade às peças; que apesar de serem pequenas imóveis, nunca saíram daquela sala. Tentei manter alguma neutralidade em relação ao espaço, por isso as bases em que estão apoiadas as peças são feitas no mesmo material que muitas delas (gesso); usei também vidro, que acaba por estabelecer uma pequena, mas forte, barreira invisível entre o chão e este outro plano dos objectos (dois planos separados por este vidro, uma espécie de placa vazia).

A importância deste movimento prático e teórico que a cadeira de práticas da escultura proporcionou, incide principalmente nas sugestões que todas estes processos experimentais colocaram, tanto em relação ao meu trabalho dentro e fora desta cadeira.

Penso que, acima de tudo, foram abertas novas portas e possibilidades de trabalho; este projecto serviu mais para sugerir investigações do que propriamente para concluir algo.

 

Teresa Arêde

Imaginário Umbilical

Relatório

PRÁTiCAS DA ESCUTLURA

Ao longo do primeiro semestre, os pressupostos do Projecto que desenvolvi para a
Unidade Curricular de Práticas da Escultura, partiram da ideia de que as obras de arte poderão ser, para muitos artistas, formas de catarses que derivam do confronto com ele próprio. Um processo de passagem entre o que é um pensamento ou uma ideia com a formalização interior, como uma tomada de consciência. O Projecto contemplou a procura da transversatilidade da Obliteração – que molda, desta forma, as acções contemporâneas de uma pessoa – através da Memória/Recordação. A Memória/Recordação enquanto elemento do consciente e enquanto elemento do sensitivo. Os estudos que concretizei tiveram como mote a tentativa e a possibilidade de comunicar para um plano físico aquilo que existe no plano emocional e sensorial. A exploração de materiais e da cor foi, com efeito, primordial, uma vez que, é também na cor que encontro a mais perfeita comunicação – “A cor é mais forte do que a linguagem. É uma comunicação sublime”. *1


Com o trabalho pretendi desenvolver novas abordagens plásticas, nomeadamente a matéria de cerâmica. Na formalização da peça, a pesquisa de novas formas de aprendizagem, técnicas e metodologias de trabalho exerceram, assim, a promoção da multidisciplinaridade.
As experiências realizadas ao logo do 1º semestre foram de extrema importância, na medida em que me permitiram uma reflexão quer ao nível dos pressupostos quer ao das formalizações plásticas. Na exploração da matéria de cerâmica tomei a decisão de trabalhar sobre a argila antiplástica – com chamote – ou seja, de todas as matérias de cerâmica foi usado e estudado a pasta de grés, que se caracteriza pela sua opacidade, coloração e textura. Entendi que a palavra “cerâmica” é um termo de origem grega “Keramiké”, “(…) que deriva de “Keramos”, que significa “argila queimada (…)” – 2. Verificou-se, assim, que os elementos essenciais e fundamentais da cerâmica são compostos pela Argila, Água e Fogo – “(…) elementos que sempre andaram intimamente ligados à vida e ao destino do Homem” – 3. Este material subdivide-se em argilas que se caracterizam pela sua matéria heterogénea (não cozida) e pelas argilas antiplásticas que contêm já chamote, uma vez que, a sua origem vem da argila pré-cozida. Dentro dos materiais encontra-se outras duas categorias – a pasta porosa e a pasta impermeável. A pasta porosa deverá ser cozida entre os 900º e os 1000ºC, já a pasta impermeável, uma vez cozida, transforma-se numa “(…) qualidade sólida, sonora e insolúvel à água(…)” – 4. Para o projecto que estudei, a pasta chamotada foi cozida com temperaturas compreendidas entre 1200 e 1300ºC.
No processo de modelação da peça foi necessário atender a cuidados para com a pasta, como demolhar um pano em água e cobrir a superfície da matéria cerâmica, bem como, embalar a peça com plástico a fim de preservar a humidade, pois a pasta deve secar de dentro para fora, impedindo que a argila rache. Tomando estes procedimentos, a pasta não endurecia e era perfeitamente passível de dar continuidade ao mesmo projecto e método durante algum tempo. Para que o estudo fosse depois cozido era necessário esperar que a pasta ficasse completamente seca. Cada peça individual e independente foi recortada e tratada. No final optei por não pintar ou vidrar as minhas peças, visto
que procurava a matéria na sua essência em bruto – a procura da solução de cor foi desde o início uma preocupação a ter em conta, pois, “(…) O Branco significa voltar ao  princípio” – Louise Bourgeois, “Destruction of the Father/Reconstruction of the Father”
Dos diversos processos desenvolvidos, considero que o projecto funciona como um apontamento de ideia – peça/maqueta – no qual a Obliteração funciona na separação das peças, existindo, por isso, uma perda de ligação numa formalização que tenciona ser de aparência frágil.

A partir das formas cerâmicas variadas foi deliniado um estudo de diferentes abordagens
a este desenho, nomeadamente sobre a possibilidade de a partir de um esboço e estrutura iniciais, desenvolver construções diversas no espaço de forma a acentuar ritmos e movimentos de separação/distanciamento. Assim, pretendi trabalhar sobre o universo de interveção artística colocando questões acerca da relação entre a “obra humana” e a “obra da natureza”, suportados por elementos de ordem geométrica. Observei que a desmultiplicação, a fragmentação, a repetição e o perscrutar de possibilidades como forma de transportar e transformar os elementos para espaços que não lhes pertencem e com o objectivo de criar meios interpretativos da relação ser humano/ lugar – um projecto caracterizado por um carácter efémero no espaço, que reelabora e inscreve a sua presença num processo construtivo e evolutivo.

 

“A cerâmica é ao mesmo tempo a mais simples e a mais difícil de todas as artes. A mais simples por ser a mais elementar, a mais difícil, por ser a mais abstracta.”

“(…) de facto, esta forma de arte é tão fundamental, está tão intimamente ligada às necessidades mais elementares da civilização, que o génio nacional de um povo tem sempre de achar maneira de nela se exprimir.”

Herbert Read



*1 – Loise Bourgeois, “Destruction of the Father/Reconstruction of the Father”;

*2, 3, 4 – Júlio Resende, “A Cerâmica”.

Processo

 

sinopse

Projecto de carácter escultórico que consiste em cerca de 30 peças paralelepipedas de dimensões de 3cm x 3cm x 40cm.

Cada peça é individual e independente, no entanto, faz a constituição de um todo – um desenho no espaço.

Pretendo estudar e pensar nas peças enquanto construções simbólicas no espaço e a sua relação de interior e exterior.

 

Estas foram as primeiras ideias em relação a este projecto. Muitas delas já se encontram desactualizadas em relação ao processo de trabalho que tenho encaminhado. Mas é importante, para mim, ir voltando ao início; ou perceber o início das ideias.

Gostava de pensar esta proposta e o que posso fazer dela, em continuidade com algumas ideias que já tinha começado a problematizar em trabalhos passados.

Tenho um grande interesse na presença e realidade dos objectos; questionando as suas funções, tornando-os em peças desmanteladas do seu sentido original. Pretendo manter um raciocínio e uma pesquisa interessada na escolha de objectos que possuam por si só uma qualquer capacidade icónica, quase simbólica. A partir de materiais vários (como o gesso, silicones etc. pelo meio de moldes…) reproduzi-los e modificá-los.

Torna-se também um ponto relevante a relação que estes objectos podem obter entre si, se colocados de determinada maneira; como num altar religioso em que são simbólicos tanto por si só e como pela maneira como são colocados. O mesmo posso aferir do posicionamento muito pessoal de objectos numa mesinha de cabeceira, ou na banca de uma cozinha; composições por vezes ingenuamente hierárquicas.

A ideia de uma estranha aproximação à ‘assemblage’ recorrendo a estes objectos modificados, surge aqui como um caminho vasto em hipóteses de composição, e que me pode ajudar a perceber a forma final destes objectos agrupados.

 

Dentro desta linha de pensamento reuni alguns tópicos ainda muito pouco organizados e específicos mas que procuram, de alguma forma, tactear potenciais ideias e enredos.

 

. assemblage.

. relações entre os objectos.

. absorção e distorção da ‘utilidade’ ou função dos objectos.

. que características essenciais denunciam a utilidade de um objecto?

. como destruir e manipular o simbolismo dos objectos?

. composição

. o teatro, a cenografia.

. a construção de um cenário, de uma história.

. a organização dos artefactos como se tratassem de símbolos.

. naturezas mortas.

 

‘It has to do with theater. Theater in the sense of an image, an environment that’s made privately. Somebody makes an altar in their house, or the set up objects on tables, or thet organize objects in windows (like a real theater with curtains). A church is another kind of theater; a museum is another kind of theater.’ Bruce Conner

Jeanne Opgenhaffen

Jeanne Opnhaffen nasceu em Nieuwkerken – Waas, Belgium, 1938. Vive e trabalha na Bélgica, expõe trabalhos internacionalmente, em porcelana natural ou colorida, desde 1980. As suas referências são padrões de vento, paisagens e outros elementos orgânicos. Nos seus trabalhos estão sempre presentes profundidade e movimento.