Imaginário Umbilical

Relatório

PRÁTiCAS DA ESCUTLURA

Ao longo do primeiro semestre, os pressupostos do Projecto que desenvolvi para a
Unidade Curricular de Práticas da Escultura, partiram da ideia de que as obras de arte poderão ser, para muitos artistas, formas de catarses que derivam do confronto com ele próprio. Um processo de passagem entre o que é um pensamento ou uma ideia com a formalização interior, como uma tomada de consciência. O Projecto contemplou a procura da transversatilidade da Obliteração – que molda, desta forma, as acções contemporâneas de uma pessoa – através da Memória/Recordação. A Memória/Recordação enquanto elemento do consciente e enquanto elemento do sensitivo. Os estudos que concretizei tiveram como mote a tentativa e a possibilidade de comunicar para um plano físico aquilo que existe no plano emocional e sensorial. A exploração de materiais e da cor foi, com efeito, primordial, uma vez que, é também na cor que encontro a mais perfeita comunicação – “A cor é mais forte do que a linguagem. É uma comunicação sublime”. *1


Com o trabalho pretendi desenvolver novas abordagens plásticas, nomeadamente a matéria de cerâmica. Na formalização da peça, a pesquisa de novas formas de aprendizagem, técnicas e metodologias de trabalho exerceram, assim, a promoção da multidisciplinaridade.
As experiências realizadas ao logo do 1º semestre foram de extrema importância, na medida em que me permitiram uma reflexão quer ao nível dos pressupostos quer ao das formalizações plásticas. Na exploração da matéria de cerâmica tomei a decisão de trabalhar sobre a argila antiplástica – com chamote – ou seja, de todas as matérias de cerâmica foi usado e estudado a pasta de grés, que se caracteriza pela sua opacidade, coloração e textura. Entendi que a palavra “cerâmica” é um termo de origem grega “Keramiké”, “(…) que deriva de “Keramos”, que significa “argila queimada (…)” – 2. Verificou-se, assim, que os elementos essenciais e fundamentais da cerâmica são compostos pela Argila, Água e Fogo – “(…) elementos que sempre andaram intimamente ligados à vida e ao destino do Homem” – 3. Este material subdivide-se em argilas que se caracterizam pela sua matéria heterogénea (não cozida) e pelas argilas antiplásticas que contêm já chamote, uma vez que, a sua origem vem da argila pré-cozida. Dentro dos materiais encontra-se outras duas categorias – a pasta porosa e a pasta impermeável. A pasta porosa deverá ser cozida entre os 900º e os 1000ºC, já a pasta impermeável, uma vez cozida, transforma-se numa “(…) qualidade sólida, sonora e insolúvel à água(…)” – 4. Para o projecto que estudei, a pasta chamotada foi cozida com temperaturas compreendidas entre 1200 e 1300ºC.
No processo de modelação da peça foi necessário atender a cuidados para com a pasta, como demolhar um pano em água e cobrir a superfície da matéria cerâmica, bem como, embalar a peça com plástico a fim de preservar a humidade, pois a pasta deve secar de dentro para fora, impedindo que a argila rache. Tomando estes procedimentos, a pasta não endurecia e era perfeitamente passível de dar continuidade ao mesmo projecto e método durante algum tempo. Para que o estudo fosse depois cozido era necessário esperar que a pasta ficasse completamente seca. Cada peça individual e independente foi recortada e tratada. No final optei por não pintar ou vidrar as minhas peças, visto
que procurava a matéria na sua essência em bruto – a procura da solução de cor foi desde o início uma preocupação a ter em conta, pois, “(…) O Branco significa voltar ao  princípio” – Louise Bourgeois, “Destruction of the Father/Reconstruction of the Father”
Dos diversos processos desenvolvidos, considero que o projecto funciona como um apontamento de ideia – peça/maqueta – no qual a Obliteração funciona na separação das peças, existindo, por isso, uma perda de ligação numa formalização que tenciona ser de aparência frágil.

A partir das formas cerâmicas variadas foi deliniado um estudo de diferentes abordagens
a este desenho, nomeadamente sobre a possibilidade de a partir de um esboço e estrutura iniciais, desenvolver construções diversas no espaço de forma a acentuar ritmos e movimentos de separação/distanciamento. Assim, pretendi trabalhar sobre o universo de interveção artística colocando questões acerca da relação entre a “obra humana” e a “obra da natureza”, suportados por elementos de ordem geométrica. Observei que a desmultiplicação, a fragmentação, a repetição e o perscrutar de possibilidades como forma de transportar e transformar os elementos para espaços que não lhes pertencem e com o objectivo de criar meios interpretativos da relação ser humano/ lugar – um projecto caracterizado por um carácter efémero no espaço, que reelabora e inscreve a sua presença num processo construtivo e evolutivo.

 

“A cerâmica é ao mesmo tempo a mais simples e a mais difícil de todas as artes. A mais simples por ser a mais elementar, a mais difícil, por ser a mais abstracta.”

“(…) de facto, esta forma de arte é tão fundamental, está tão intimamente ligada às necessidades mais elementares da civilização, que o génio nacional de um povo tem sempre de achar maneira de nela se exprimir.”

Herbert Read



*1 – Loise Bourgeois, “Destruction of the Father/Reconstruction of the Father”;

*2, 3, 4 – Júlio Resende, “A Cerâmica”.

Processo

 

sinopse

Projecto de carácter escultórico que consiste em cerca de 30 peças paralelepipedas de dimensões de 3cm x 3cm x 40cm.

Cada peça é individual e independente, no entanto, faz a constituição de um todo – um desenho no espaço.

Pretendo estudar e pensar nas peças enquanto construções simbólicas no espaço e a sua relação de interior e exterior.