Mais ideias acerca do projecto.

Não gostaria de começar esta reflexão acerca do trabalho deste semestre, com algum tipo de descrição pormenorizada do processo. Penso que todo o desenvolvimento esteve bem presente e à vista de todos. As peças iam-se multiplicando semanalmente, sendo visíveis no local de trabalho. Aliás é neste ponto que queria inicialmente pegar; a influência do local de trabalho e a maneira como, tecnicamente, o trabalho se ia resolvendo, tendo em conta os processos que ia aprendendo e as dificuldades que precisavam de ser contornadas.

Aliás, grande parte da raiz teórica e conceptual da proposta foi-se transladando à medida que o processo de aprendizagem avançava. De facto, propus-me a trabalhar em algo do qual pouco ou nada sabia. A nível das áreas da escultura nunca tinha tido grande contacto, portanto foi necessária uma introdução cuidada a muitos conceitos e técnicas, incidindo predominantemente nos moldes.

A ideia inicial, de uma ‘assemblage’ de relações entre os objectos (objecto pelo objecto) foi sendo gradualmente substituída pelas noções que incidiam entre o objecto e o seu próprio molde, o seu negativo, como um constante movimento de ausência e ocultação. Um jogo de engano, em que os objectos se medem pelas suas metades, por apenas uma das suas faces, como uma espécie de marca que acaba por nunca dizer tudo acerca do todo da peça. Acima de tudo, os processos técnicos acerca dos moldes ajudaram-me a conseguir materializar a ideia inicial, acabaram por lhe conceder uma espécie de mutação, o foco centra-se agora não só na poética entre objectos mas incide na própria aura de cada objecto. Cada peça reconhece os assuntos e dualidades presentes na sua própria existência e na ausência do seu todo. Portanto, reconheceram-se problemáticas importantes da ideia inicial, tal como a simbologia e valor das formas, mas estes assuntos acabaram por ser moldados por via do desenvolvimento prático do projecto.

A forma como alguns dos resultados destas experiências foram expostos, diz muito acerca do próprio ponto de desenvolvimento em que se encontravam dentro do projecto.

Foram pensados os indícios de assunto que poderiam existir entre uma ou outra forma, incidindo em momentos de ocultação, sempre na dúvida da verdadeira realidade da forma. Este último ‘ensaio expositivo’ acabou por ter lugar no próprio espaço em que todo o projecto foi realizado, o que inevitavelmente concedeu uma certa especificidade às peças; que apesar de serem pequenas imóveis, nunca saíram daquela sala. Tentei manter alguma neutralidade em relação ao espaço, por isso as bases em que estão apoiadas as peças são feitas no mesmo material que muitas delas (gesso); usei também vidro, que acaba por estabelecer uma pequena, mas forte, barreira invisível entre o chão e este outro plano dos objectos (dois planos separados por este vidro, uma espécie de placa vazia).

A importância deste movimento prático e teórico que a cadeira de práticas da escultura proporcionou, incide principalmente nas sugestões que todas estes processos experimentais colocaram, tanto em relação ao meu trabalho dentro e fora desta cadeira.

Penso que, acima de tudo, foram abertas novas portas e possibilidades de trabalho; este projecto serviu mais para sugerir investigações do que propriamente para concluir algo.

 

Teresa Arêde

Estas foram as primeiras ideias em relação a este projecto. Muitas delas já se encontram desactualizadas em relação ao processo de trabalho que tenho encaminhado. Mas é importante, para mim, ir voltando ao início; ou perceber o início das ideias.

Gostava de pensar esta proposta e o que posso fazer dela, em continuidade com algumas ideias que já tinha começado a problematizar em trabalhos passados.

Tenho um grande interesse na presença e realidade dos objectos; questionando as suas funções, tornando-os em peças desmanteladas do seu sentido original. Pretendo manter um raciocínio e uma pesquisa interessada na escolha de objectos que possuam por si só uma qualquer capacidade icónica, quase simbólica. A partir de materiais vários (como o gesso, silicones etc. pelo meio de moldes…) reproduzi-los e modificá-los.

Torna-se também um ponto relevante a relação que estes objectos podem obter entre si, se colocados de determinada maneira; como num altar religioso em que são simbólicos tanto por si só e como pela maneira como são colocados. O mesmo posso aferir do posicionamento muito pessoal de objectos numa mesinha de cabeceira, ou na banca de uma cozinha; composições por vezes ingenuamente hierárquicas.

A ideia de uma estranha aproximação à ‘assemblage’ recorrendo a estes objectos modificados, surge aqui como um caminho vasto em hipóteses de composição, e que me pode ajudar a perceber a forma final destes objectos agrupados.

 

Dentro desta linha de pensamento reuni alguns tópicos ainda muito pouco organizados e específicos mas que procuram, de alguma forma, tactear potenciais ideias e enredos.

 

. assemblage.

. relações entre os objectos.

. absorção e distorção da ‘utilidade’ ou função dos objectos.

. que características essenciais denunciam a utilidade de um objecto?

. como destruir e manipular o simbolismo dos objectos?

. composição

. o teatro, a cenografia.

. a construção de um cenário, de uma história.

. a organização dos artefactos como se tratassem de símbolos.

. naturezas mortas.

 

‘It has to do with theater. Theater in the sense of an image, an environment that’s made privately. Somebody makes an altar in their house, or the set up objects on tables, or thet organize objects in windows (like a real theater with curtains). A church is another kind of theater; a museum is another kind of theater.’ Bruce Conner