AnaBárbaraFonseca

Diário de trabalho

1º fase – A Ideia Inicial

No âmbito da disciplina de Práticas da Escultura, mais do que criar algum tipo de “Obra de arte”, pessoalmente interessa-me a experimentação de matérias, nomeadamente a madeira, a qual sempre me fascinou devido ás suas propriedades e características, como a sua textura e aparência final. È também uma oportunidade para expandir os meus conhecimentos e experimentar algo novo que até agora nunca me tinha aventurado a fazer. Passar de um formato bidimensional (pintura) ao tridimensional (escultura).

Sendo este trabalho o meu primeiro contacto com a escultura e qualquer prática do género, através da simplicidade queria que fosse conduzido todo o meu projecto.

A ideia seria produzir um auto-retrato, onde se misturasse o meu passado com o meu presente numa pequena estátua do tamanho de uma criança de 5-6 anos, capaz de reproduzir através dela os meus medos de infância e a repercussão destes na minha personalidade actual. Não necessariamente uma representação comum, usual de ser humano, mas sim aportando parte de essa peça ás criaturas ( animais, desenhos animados, lendas, mitologias) que tanto nos atormentam, ou com as quais nos identificamos quando a nossa inocência ainda o permite.

Como referi acima, o material de eleição seria a madeira, posteriormente pintada, ou não, tentando não restringir o trabalho a esta ideia pré definida inicial, mas deixando-o fluir conforme os obstáculos que me vão surgindo e tendo sempre em conta todos os factores imprevisíveis que seguramente surgirão a quem está a experimentar algo pela primeira vez.

Como artistas de referencia destaco a japonesa Yayoi Kusama devido ao seu trabalho colorido, de formas variadas e interessantes e de caracter infantil, a alemã  Yasam Sasmazer e Jessica Stockholder.

2º fase – À procura….

No seguimento da proposta inicial, surgiram novas ideias fruto de uma pesquisa mais aprofundada a nível da pratica escultórica, e sucessivamente do próprio tema de trabalho que mudaram completamente o rumo de todo o projecto. A partir da ideia inicial da um auto retracto que funcionasse como marco simbólico de um processo de crescimento e mudança, surgiu a hipótese da concretização de uma espécie de um totem pessoal, constituído por figuras simbólicas, elementos naturais, animais ou através do próprio auto-retracto, que começaram por ser produzidas a uma escala mais pequena no âmbito da cerâmica. Após a execução dessas pequenas figuras foi necessário transformar o projecto á escala pretendida, na qual faria sentido.

A madeira sendo o material inicialmente elegido, devido a vários problemas logísticos foi substituída por outro tipo de material, mais barato, de fácil transporte e principalmente de fácil manuseamento. Um tipo de material que correspondesse a toda uma série de necessidades inerentes ao trabalho. O Ytong foi o material seleccionado para tal. As pequenas figuras de cerâmica darão origem a uma série de 3 grandes figuras de Ytong, que posteriormente serão pintadas e colocadas de forma ascendente criando o totem pretendido.

Um totem é um objecto com grande poder simbólico, utilizado por uma sociedade para prestar culto a um Deus. Pode ter a forma de um objecto, de uma planta ou de um animal, como é bastante frequente, sobre o qual uma sociedade se organiza movida principalmente por motivos religiosos.

Por definição religiosa podemos afirmar que é uma etiqueta colectiva tribal, que tem um carácter religioso. É em relação a ele que as coisas são classificadas em sagradas ou profanas. Segundo Schoolcraft, analisando os termos dos totens tribais da América do Norte, “o totem, diz ele, é na verdade um desenho que corresponde aos emblemas heráldicos das nações civilizadas e que cada pessoa é autorizada a portar como prova da identidade da família à qual pertence. É o que demonstra a etimologia verdadeira da palavra, derivada de ‘dodaim’, que significa aldeia ou residência de um grupo familiar”.

No meu caso particular é um totem que simboliza o meu percurso, tanto a nivel de crescimento pessoal, como a nível académico. Desde o primeiro momento em que a ideia surge, todos os obstáculos que vão inevitavelmente aparecendo pelo caminho até á sua concretização final simbolizam de certa forma mais uma etapa da minha vida, que apesar de aparentemente ser bastante curta, nela podemos ver reflectido todo o meu passado assim como seguramente irá reflectir-se no meu futuro. Tudo aquilo que construímos, idealizamos ou sonhamos está de certa forma vincado na nossa personalidade ou na forma como nos comportamos e consecutivamente em tudo aquilo que fazemos.

È um trabalho que prima pela simbologia. Cada uma das imagens está carregada de conotações que reflectem todo o processo de trabalho.

3ª fase – A chegada…..

A aventura começa no momento em que é necessário adquirir a matéria prima, a qual me tinha aconselhado um amigo devido á facilidade com que se trabalha e ao baixo custo. A viagem até á fabrica de ytong na companhia de um amigo, um mapa desenhado através do Google Maps, uma mala demasiado pequena para quatro blocos de ytong, a sua colocação na faculdade e por fim o desafio está lançado. È tempo de por mãos á obra e começar o trabalho por algum lado. Lado que nunca havia pensado experimentar, esculpir. Através das pequenas estátuas criadas em cerâmica vou desenhando os blocos de ytong, com medo de errar e de não poder desfazer o erro como estou habituada na pintura. Através de um processo de subtracção de matéria, a forma desejada começa a surgir e o medo é algo que obrigatoriamente fica para trás. Depois da primeira figura concluída era necessário produzir mais duas. O tempo depositado na primeira tinha sido bastante, as duas seguintes deveriam sem muito mais rápidas a nível de execução, deveriam estar terminadas a tempo de ainda as conseguir pintar e de contemplar o resultado final, para possíveis alterações.

O inverno chegou e trabalhar nas oficinas de pedra não era uma das tarefas mais fáceis da minha semana. Talvez transportar as peças para casa fosse mais produtivo, esculpi-las no terraço onde bate o sol. Depois de tardes a fio a esculpir as peças, vem a fase seguinte, pintá-las. Inicialmente comecei por pintá-las de forma experimental, misturando tintas, criando tonalidades que preenchessem toda a figura de uma forma mais ou menos homogénea. Mas de certa forma o resultado não me agradava, tinha outra coisa em mente. Queria que se parecessem imagens estranhas, composições de cores fortes ao contrario daquilo a que os totems nos habituaram, e ao mesmo tempo repletas de formas que as remetessem para o universo da simbologia.

Após conjugar várias cores distintas, a combinação que mais me agradou foi o preto, como cor dominante, o amarelo que se aproxima ao tom de pele, o vermelho e o azul esverdeado. No fundo, de modo inconsciente são cores que devido ao facto de se aproximaram das três cores primárias funcionam bastante bem em conjunto. O preto devido ao facto de fazer com que as restantes cores vibrem bastante e se destaquem, também me pareceu uma boa escolha.

No resultado final consigo identificar alguns factores, relativos ao meu carácter e também ao projecto a ser desenvolvido na disciplina de pintura. Sendo a disciplina principal do 4º ano, de certa forma parece que tudo aquilo que produzimos paralelamente nas outras disciplinas está influenciado consciente ou inconscientemente pelo projecto a ser desenvolvido. Nesta caso mais do que me referir ao conceito do meu trabalho que relaciona a musica com a cor, a forma com a vibração, criando uma espécie de mapas sensoriais importa referir o carácter formal deste. Sobre uma superfície lisa, que faz também ela parte da própria composição pictória, destacam-se linhas e manchas de cores fortes e planas conjugadas de diversas formas. De maneira a conseguir composições visuais fortes e apelativas a nível sensorial, as cores estão conjugadas de acordo com vários estudos sobre a cor, cores complementares, cores que variam apenas de tonalidade, ou cores que simplesmente resultam bem visualmente. O totem é também fruto deste estudo compositivo, na tentativa de criar formas simples, apelativas a nível dos sentidos através da conjugação das cores aplicadas sobre uma forma lisa. De certa forma este jogo de cor e de forma está associado a uma tentativa de conferir um carácter místico ou mágico através da simbologia representada nas próprias formas coloridas. Depois de contemplar a forma, surgem novas necessidades e uma série de questões de forma a melhorar o trabalho. Talvez menos seja mais, e o próprio trabalho me esteja a pedir algum silêncio a nível da cor, menos contraste. Embora as peças tenham sido criadas já com a ideia de desenhar com a cor sobre a superfície, talvez seja interessante através de uma velatura homogénea fazer sobressair zonas de sombra e de luz, características da própria figura.

Anexo de Imagens

(referências, processo, trabalho final)

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