Nicole Mota

à medida do sapato

E poderia chamar sapato à medida? à medida que o sapato, há medida de sapato?

Temos medidas e temos sapatos: medidas dos sapatos ou sapatos como medidas. Um sapato, dois sapatos, sete sapatos. Mede sete sapatos. O espaço medido a sapatos! Como se tudo pudesse ser medido; ou ser medida. É como dar passos para medir o espaço, palmos para medir o corpo, dedos para medir a testa. Um sapato, uma unidade de medida. O sapato, a unidade de medida.

Poderia resumir isto aos cânones anatómicos, ao corpo como sistema de medidas que se vai desdobrando em pequenas relações de proporção. Da cabeça aos pés: tudo medível tudo medida. O sapato-instrumento é o pé tornado portátil. Por um lado a objectividade das convenções geométricas, das leis matemáticas; por outro a relatividade dos corpos: será um padrão absoluto ou mutável?

Comecei pelo fim, este título, para agora voltar ao início.

“O trabalho que me proponho desenvolver surge do meu interesse pela estrutura dos objectos, aquilo que é invisível à forma mas que lhe dá forma. Pela estrutura como base fundamental que alicerça aquilo que vemos, condição da sua existência mas desconhecida dela. Fascina-me de algum modo este esqueleto, talvez por ser algo misterioso e oculto, que se esconde por detrás de uma cortina mas que tem um potencial para se expor diante dela. Este conceito levou-me ao objecto cabide, de uma funcionalidade muito banal e óbvia. Cheguei a esta forma não só por me atrair o seu carácter simplista e estático como também por se assemelhar ao esqueleto humano. Jogando um pouco com esta relação, pensei em adaptar as dimensões dos cabides, normalmente padronizados e universais, às proporções de diferentes corpos, individualizando-os e “personalizando-os”. Relacionada também com esta ideia de cânones anatómicos, pretendo fazer alusão à escultura clássica, área que os desenvolveu intensamente, utilizando o mármore como matéria principal de trabalho.”

Ao olhar para o resultado final do meu trabalho parece que em nada este tem em comum com esta primeira proposta. Talvez seja exactamente esse o seu interesse. Olhar para o início e pensar como é que se desenvolveu e transformou durante o processo, porque importa reflectir o carácter inesperado de toda a produção. O resultado sempre surpreendente quando vai além, ou mesmo, quando foge do previsto e nos propõe novas questões, conceitos, dúvidas. Como é que, partindo de um cabide, cheguei a este resultado? Qual o elo de ligação que agora me parece tão desalinhado/desfiado? Se calhar é mais relevante aquele fascínio pela estrutura/esqueleto, por aquilo que dá forma e sustenta o objecto, do que a própria escolha do objecto. De cabides passei a moldes de chapéus; de moldes de chapéus a moldes de sapatos, tornando-se, estes últimos, no motivo principal do meu trabalho.

Vejo os moldes como um elemento capaz de se reproduzir infinitas vezes naquela forma, naquele tamanho, num número igual para todos. Mas depois, se o descolarmos da sua especificidade operativa e funcional, não vemos um potencial estético capaz de subverter esse pragmatismo? De ser mais do que simples meio-para?

O projecto começou por uma procura destes objectos e processos obsoletos, um estudo de campo que passou por chapelarias, alfaiates e modistas. Locais onde se fazia o vestuário (chapéu, fato e sapatos) à medida da pessoa: aqui, é a forma que se ajusta ao corpo e não o corpo que se adapta à forma.

E com os moldes, o que aconteceu? Eles assumiram-se logo como verdadeiras esculturas tornando-se evidente que eu nada poderia fazer com eles pois, por si só, já o eram (ou para mim o eram). Reproduzi-los? em outra escala? seria redundante. Não acrescentaria nada ou caía no risco de retirar a sua natural beleza. Ao evidenciar a sua descrição estaria a retirar-lhe essa qualidade. Ao obrigar à exposição estaria a roubar-lhe a subtileza. De algum modo, parecia que o estava a desrespeitar, a invadir um espaço cujo acesso é privado e reservado, nunca livre nem imediato.

Com isto em consideração,

processo à medida do sapato:

1.fotografo o molde do sapato, 2. pego na fotografia do molde do sapato, 3. contorno a silhueta do objecto na fotografia, 4. a partir deste desenho de contorno, que reflecte apenas uma das possíveis perspectivas, crio o volume de um novo objecto. É quase paradoxal como algo tão vulnerável como uma silhueta do objecto, por depender da posição, neste caso, do fotógrafo,  é a base estruturante dos novos objectos. O exterior passa a ser interior; a superfície, o suporte.  Para cada silhueta imagino uma nova forma que esta poderia contornar.

Foram estas as minhas regras, instruções de um jogo que passa do plano tridimensional – molde do sapato – para bidimensional – fotografia – voltando ao tridimensional – peça. A cada salto deforma-se, transforma-se. O molde é assim capaz de se reproduzir em infinitos objectos, já não clones umas das outras, mas pelo contrário, mutantes.

Do desenho da silhueta passo à modelação em barro. A forma criada procura ser o mais fiel possível ao seu contorno-estrutura. Este rigor metódico é sucedido por um processo de construção muito mais intuitivo e livre. Preso à sensibilidade do tacto. Acho que era pelo simples prazer de passar a mão e às vezes haver uma curva mais apertada, outras vezes mais saliente. Revelando-se num acabamento sensual e liso. Por fim, a forma aparenta um estado qualquer transitório, medeia, instável, numa espécie de gestação.

Neste projecto, na fase de “exposição”, o processo não me parece assim tão relevante para a sua apreensão, aliás, até um pouco arbitrário. Não que isto o desvalorize, simplesmente não quis criar uma ligação directa com a sua origem, o que implicaria colocar as fotografias e os desenhos lado a lado com as peças, para que o espectador os pudesse comparar, quase como num jogo de diferenças onde se procura encaixar peça no desenho, desenho na fotografia. As peças, porque capazes de se desprender do seu motivo, tornaram-se autónomas.

Por isto o “à medida do sapato” quer, de um modo indirecto, recordar esse momento. Uma pista, uma brincadeira de palavras. Se pensarmos em sapatos, olhamos para as peças e até vemos uma possibilidade de o serem; mas isso já não é importante, porque já não o são. Agora, outra coisa. Porque não formas orgânicas que se assemelham a partes do corpo, sem sequer sabermos que partes dele são?

No conjunto, há ainda uma relação de materiais, entre mármore, gesso e cimento. Uma hierarquia? Servirá o gesso apenas como molde, protótipo para se reproduzir no seu superior, mármore?  E o cimento como tosco material de construção barato que apenas serve de suporte para “a obra”? Entre eles, texturas confrontam-se. A suavidade do gesso e mármore sob rugosidade do cimento. Diferentes patamares em diálogo que, apesar de contrastante, resulta em harmonia.

Para reflectir sobre a importância deste percurso dentro e fora da disciplina de Práticas de Escultura, vários aspectos são de valorizar tanto a nível conceptual como técnico, aqui, nunca os distinguindo pois ambos se confundem e contaminam. O todo, que vai do trabalho realizado às experiências e principalmente ao próprio estar e ver/ajudar os outros, só terá verdadeira importância na medida em que servirá de motor para novos trabalhos. Não o vejo como um movimento estanque, isolado, mas como princípio gerador que desencadeia uma rede de possibilidades. Permitiu sobretudo expandir o meu vocabulário artístico, ou seja, enriquecer a multiplicidade de meios que disponho para materializar conceitos e expressar ideias. Do meu ponto de vista, conhecer um material é como conhecer uma nova língua. É um conhecimento que permite uma maior flexibilidade não só física – compreender os limites do material e do corpo em relação ao material – mas principalmente maior destreza conceptual, um conhecimento motor e gerador de novas ideias.

Cada matéria, um léxico específico e um tempo preciso. Barro, gesso, cera, resinas, pedra – cada um com as devidas restrições, uns por serem frágeis, outros tóxicos, outros demasiado dispendiosos, outros demorados. Cada um com o seu método, cada um com o seu pensamento. Logo de imediato, processos aditivos (barro) e processos subtractivos (pedra), completamente distintos, é preciso pensar ao contrário, inverter toda a lógica que já sabíamos. Penso não estar a mentir quando digo que a experiência em pedra foi a mais estimulante física e mentalmente por todo o esforço e tempo exigidos. É preciso uma maior adaptação aos materiais, ao espaço, ao barulho porque é impossível começar de um modo tranquilo e despreocupado, a pequena falta de atenção, desvio, acidente: os estragos são maiores. Por isso o inicial, admito mesmo, medo daquilo tudo que só com o tempo se foi atenuando. Modelar barro, modelar pedra, modelar o desenho: as linhas invisíveis desta modelação, são a estrutura interior que à pele da superfície se torna visível.

1. fotografias dos moldes

2. desenhos de contorno das silhuetas

3. primeiras peças criadas em gesso

4. Workshop de pedra com a professora Susana Piteira (2 semanas)

5. Experiências com outros materiais (cera e resinas)
6. Apresentação final
6. Referências
Hans Arp, Sculpture to be Lost in the Forest, 1932

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